
NÃO PODE HAVER o prazer da leitura quando a leitura não dá prazer. Se um livro não te agrada nas primeiras 70 páginas, tenta indulgentemente relê-las. Se a má impressão perdurar, não percas tempo: jogue fora o livro. Se se tratar de livro dito fundamental, faze a mesma experiência reduzindo para 50 o número de páginas. A leitura feita a contragosto é a pior desgraça que pode acontecer ao desgraçado que a faz
(SALES, Herberto. SubsiDiário: confissões, memórias & histórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988, p. 260)

Como as pessoas lêem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das idéias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama.
Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público; por exemplo, planfetos políticos ou literários, romances, poesia etc., que causam rebuliço justamente naquele momento e chegam a ter várias edições em seu primeiro e último ano de vida. Basta nos lembrarmos de que, em geral, quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público, a fim de que nosso tempo destinado à leitura, que costuma ser escasso, seja voltado exclusivamente para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e povos, para os homens que se destacam em relação ao resto da humanidade e que são apontados como tais pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais.
Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito.
Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.
(SCHOPENHAUER, Arthur. "Sobre a leitura e os livros", in A arte de escrever. Tradução de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2005, pp. 132-133)

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